poemas

30-05-2011 15:44

 

Apego à vida. Não às coisas da vida.

Sabendo que a vida é feita de coisas.  E o estado das coisas

é o de ser cru, frio, surdo, duro.

É preciso, pois, colocar poesia

- como se coloca óleo nas dobradiças das portas -

em todos os momentos da existência.

Enquanto nossas forças resistirem.

 

 

O CULTIVO DA FLOR

 

Amor rima com rancor

Mas não combina

Porque quem ama

Tem a sina

De saber que a dor

Mais funda

Só ensina.

E aprender é a única lição

Que ao amante lhe cabe

Pois quem ama de verdade

Ama amar o amor

Retirando a praga

Do rancor

Do jardim da saudade.

 

II

Assim como se aprende

A escrever lendo

Aprende-se a amar

Sofrendo.

Mas ai daquele que sofre

Sem amar.

É como o ignorante

A olhar as páginas

De um livro

Perdendo tempo

Se achando sabido.

 

III

Todo mundo quer amar

Todo mundo quer amor

E senti-lo profundamente

Mas é preciso aguar e cuidar

Todo dia

Para que o fruto da poesia

Germine da semente.

Já que só se pode dar a amar

Quem da ferida sabe tirar

Pelo mesmo caminho

A beleza da flor

E o rancor do espinho.

 

 

Ode a Dioniso

Ode a Dioniso (em teu nome)

Daí-nos Dioniso
O vinho e o sexo
A crueldade e o prazer
Dai-nos de beber
O esperma, o sangue
E a eterna sede de querer
Esse desejo que não sacia
Esse açoite de horror
E fantasia
Essa bebida incessante da invenção
Infla de coragem nosso coração
Sofrido
Dai força aos homens de ação
Que vão pra guerra
Cantando em tua homenagem
uma canção da Terra
Ensina a fertilidade
Que o plantio da semente
rompendo o solo anuncia
em sua pele delicada e macia
nova estação a florir

Toca a esperança
Pela flauta de Pan
Pela fartura de pão
Onde a eterna musa
Ninfa, fada, mulher
Amada
Se deixa possuir
nessa língua molhada
Nessa errância safada
Que só se pode penetrar
Os que têm o dom
Para seguir
Aqui
E além
Amém.

 

Fome de pensar

 

Está pensando com a boca? Com a boca do estômago? Parou de pensar? Deixou de usar o tutano?

 O que é então ?

 

Tua inteligência é feita de gosma, liqüem, borra?

E logo nesta hora você vem dar de dono da situação? Vê se não apavora!

Em plena construção sou eu quem te faço, pedaço, percalço, bicho papão!

Saindo assim do papel, mata borrão.

Disfarce, ou te desfaço

Te apago, areia, com as próprias mãos

Você sou eu

E mais

Você nasceu, se comeu e seu sonho perdeu a razão.

Despertado com um soco na boca

Na boca do estômago

Cabeça oca

Servida no prato, tutano.

Mas não pra mim, sou vegetariano!

Logo, o que não existe, em mim pensa que sim

entra pelo cano

volta penando

e sai por aí

perdido.

Se achando.


negócio perdido

Que alca que nafta que nada

a madrugada inteira à procura

de coisas perdidas e achadas

sem saber o rumo da estrada

até a minha casa.

A rua trancada

a vida q passa

Passa a polícia passa o ladrão

passa o inimigo passa o irmão

 

E rolava um rock rolava um rap

um samba uma embolada

rolava um protesto um afeto

até rolava uma palavra

dita de boca fechada

 

que alfa que beta que gama que falta

que ama o tiro que mata?

A madrugada toda atrás de coisas perdidas

falsas imagens e ilusões frustradas

 

Saboreando inteiro o sabor de um sonho vazio

fazia frio

mas aqui por dentro

isso era o quente



negócio perdido (continuação)

O que aquecia era o corte

da lâmina rente

deixando como presente o vento

e o silêncio de quem cala de susto

 

Todos os sentidos ligados

pêlos eriçados

abandonado à madrugada

sozinho, sem por que

afta nafta minh’alma jogada

minha mala roubada

sem caminho de volta pra casa

sem nenhuma causa a defender

 

Assim seremos assim sereno

assim viver assim morrer

como única via de acesso

ao sentido do momento

e logo em seguida

sem apego

ver tudo desaparecer.