poemas
Apego à vida. Não às coisas da vida.
Sabendo que a vida é feita de coisas. E o estado das coisas
é o de ser cru, frio, surdo, duro.
É preciso, pois, colocar poesia
- como se coloca óleo nas dobradiças das portas -
em todos os momentos da existência.
Enquanto nossas forças resistirem.
O CULTIVO DA FLOR
Amor rima com rancor
Mas não combina
Porque quem ama
Tem a sina
De saber que a dor
Mais funda
Só ensina.
E aprender é a única lição
Que ao amante lhe cabe
Pois quem ama de verdade
Ama amar o amor
Retirando a praga
Do rancor
Do jardim da saudade.
II
Assim como se aprende
A escrever lendo
Aprende-se a amar
Sofrendo.
Mas ai daquele que sofre
Sem amar.
É como o ignorante
A olhar as páginas
De um livro
Perdendo tempo
Se achando sabido.
III
Todo mundo quer amar
Todo mundo quer amor
E senti-lo profundamente
Mas é preciso aguar e cuidar
Todo dia
Para que o fruto da poesia
Germine da semente.
Já que só se pode dar a amar
Quem da ferida sabe tirar
Pelo mesmo caminho
A beleza da flor
E o rancor do espinho.
Ode a Dioniso
Ode a Dioniso (em teu nome)
Daí-nos Dioniso
O vinho e o sexo
A crueldade e o prazer
Dai-nos de beber
O esperma, o sangue
E a eterna sede de querer
Esse desejo que não sacia
Esse açoite de horror
E fantasia
Essa bebida incessante da invenção
Infla de coragem nosso coração
Sofrido
Dai força aos homens de ação
Que vão pra guerra
Cantando em tua homenagem
uma canção da Terra
Ensina a fertilidade
Que o plantio da semente
rompendo o solo anuncia
em sua pele delicada e macia
nova estação a florir
Toca a esperança
Pela flauta de Pan
Pela fartura de pão
Onde a eterna musa
Ninfa, fada, mulher
Amada
Se deixa possuir
nessa língua molhada
Nessa errância safada
Que só se pode penetrar
Os que têm o dom
Para seguir
Aqui
E além
Amém.
Fome de pensar
Está pensando com a boca? Com a boca do estômago? Parou de pensar? Deixou de usar o tutano?
O que é então ?
Tua inteligência é feita de gosma, liqüem, borra?
E logo nesta hora você vem dar de dono da situação? Vê se não apavora!
Em plena construção sou eu quem te faço, pedaço, percalço, bicho papão!
Saindo assim do papel, mata borrão.
Disfarce, ou te desfaço
Te apago, areia, com as próprias mãos
Você sou eu
E mais
Você nasceu, se comeu e seu sonho perdeu a razão.
Despertado com um soco na boca
Na boca do estômago
Cabeça oca
Servida no prato, tutano.
Mas não pra mim, sou vegetariano!
Logo, o que não existe, em mim pensa que sim
entra pelo cano
volta penando
e sai por aí
perdido.
Se achando.
negócio perdido
Que alca que nafta que nada
a madrugada inteira à procura
de coisas perdidas e achadas
sem saber o rumo da estrada
até a minha casa.
A rua trancada
a vida q passa
Passa a polícia passa o ladrão
passa o inimigo passa o irmão
E rolava um rock rolava um rap
um samba uma embolada
rolava um protesto um afeto
até rolava uma palavra
dita de boca fechada
que alfa que beta que gama que falta
que ama o tiro que mata?
A madrugada toda atrás de coisas perdidas
falsas imagens e ilusões frustradas
Saboreando inteiro o sabor de um sonho vazio
fazia frio
mas aqui por dentro
isso era o quente
negócio perdido (continuação)
O que aquecia era o corte
da lâmina rente
deixando como presente o vento
e o silêncio de quem cala de susto
Todos os sentidos ligados
pêlos eriçados
abandonado à madrugada
sozinho, sem por que
afta nafta minh’alma jogada
minha mala roubada
sem caminho de volta pra casa
sem nenhuma causa a defender
Assim seremos assim sereno
assim viver assim morrer
como única via de acesso
ao sentido do momento
e logo em seguida
sem apego
ver tudo desaparecer.



